Hoje, 30 de maio, a Igreja celebra Santa Joana d’Arc. E é bem provável que você tenha crescido ouvindo que foi a própria Igreja quem a amarrou na fogueira. É daquelas frases ditas com tanta segurança que ninguém mais se dá ao trabalho de conferir: “a Igreja queimou Joana d’Arc”. Os inimigos repetem para acusar; alguns dos nossos repetem, cabisbaixos, para pedir desculpas.
Pois eu vim te dizer, caro leitor, que ambos estão errados.
A Igreja nunca condenou Santa Joana d’Arc.
E eu sei o que você está pensando, porque eu também desconfio dessa saída: a velha defesa preguiçosa de que, quando é glória, é a Igreja, e quando é vergonha, “foram só os homens”. Não é disso que estou falando. O que eu afirmo é outra coisa, e é precisa: o tribunal que matou Santa Joana fez isso pisoteando as leis da própria Igreja. E um processo que despreza o direito da Igreja não é um processo da Igreja. É outra coisa, vestida com as suas roupas.
Mas eu corro. Volte comigo ao começo.
Santa Joana d’Arc era uma camponesa da Lorena que desde os treze anos ouvia uma Voz, e que depois veria São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida, mandando-a socorrer o rei de França. Era a Guerra dos Cem Anos. O Norte estava ocupado pelos ingleses; Carlos VII, ainda não sagrado, esperava em Bourges; e uma menina apareceu na corte dizendo que Deus a enviava. Em 8 de maio de 1429 libertou Orléans. Em julho, viu o rei ser sagrado em Reims. E então, defendendo Compiègne, caiu prisioneira — e foi vendida aos ingleses como se vende um troféu de guerra.
A história poderia ter terminado num resgate. Não terminou.
Repare não no que decidiram, mas em como decidiram.
O juiz era Pierre Cauchon, bispo de Beauvais — e Cauchon não era um pastor zelando por uma ovelha; era um homem que devia a carreira inteira à causa inglesa, parte interessada naquela guerra. Julgou-a longe da sua diocese, em terra ocupada. A ré foi mantida não num cárcere da Igreja, como mandava a norma para quem se acusa de heresia, mas numa prisão militar, guardada dia e noite por soldados de uma potência inimiga. Negaram-lhe defensor. E quando Santa Joana pediu — como era seu direito mais sagrado — para ser julgada em Roma, pelo Papa, recusaram. Negaram-lhe o recurso à Sé de Pedro.
Guarde essa última, porque nela está a chave de tudo.
Um processo que nega o recurso ao Papa já não é um processo da Igreja.
A Igreja tem leis. Tem foro próprio, tem ritos, tem o direito do acusado de apelar a Roma. Nada disso foi respeitado em Rouen — nada. O que houve ali foi um tribunal montado por uma potência em guerra, que vestiu alguns clérigos com a aparência da autoridade eclesiástica para dar verniz de legitimidade a uma execução política. Porque o alvo nunca foi a fé daquela menina. O alvo era o rei Carlos VII: se a coroa lhe viera pelas mãos de uma feiticeira, a coroa estava manchada. Joana ardeu para sujar um trono.
Não foi a Igreja. Foi uma comissão travestida de Igreja.
Em 30 de maio de 1431, aos 19 anos, ela gritou que não era herética nem cismática, pediu o crucifixo, invocou Nosso Senhor Jesus Cristo, Santa Catarina e São Miguel, e gritou “Jesus!” seis vezes enquanto as chamas subiam. Morreu canonicamente “condenada”. Mas a sentença que a matou tinha tanto de eclesiástica quanto a mitra de Cauchon tinha de santidade: era fantasia.
E aqui está o ponto que muda tudo. Vinte e cinco anos depois, em 1456, sob o Papa Calisto III, aquele processo foi finalmente examinado. E não foi revisto, como se a Igreja tivesse mudado de opinião e pedido perdão. Foi declarado nulo. Iníquo. Sem valor e sem efeito. Existe um abismo entre as duas coisas, e o católico precisa enxergá-lo.
Anular não é arrepender-se. É reconhecer que aquilo nunca teve valor algum.
Quando a Igreja anulou o processo de Rouen, ela não disse “erramos, desculpem”. Ela disse algo muito mais grave contra os culpados: aquilo nunca foi nosso. Aquela sentença nunca existiu diante do direito da Igreja e diante de Deus. A Igreja não voltou atrás — porque para voltar atrás seria preciso ter avançado, e ela jamais andou um passo naquele tribunal. Ela apenas se reconheceu, e ao se reconhecer, desmascarou o impostor. Em 1920, o Papa Bento XV não fez senão selar em glória o que já era verdade desde sempre: Santa Joana d’Arc nunca foi herege. Foi santa o tempo todo, inclusive na fogueira.
A Igreja não mudou de ideia sobre Santa Joana. Ela nunca a julgou.
Eu sei por que isso te importa hoje, meu irmão. Você chega a este texto ferido — e com razão. Padres que falharam. Bispos que se calaram. Homens que deveriam ser luz e foram escândalo. Eu não vim minimizar nada disso, e Deus me livre de transformar a dor de alguém em pretexto de catequese barata. Mas a história de Santa Joana d’Arc te ensina a fazer a distinção que salva a fé: quando um homem da Igreja age contra a doutrina e a lei da Igreja, ele não é “a Igreja agindo”. Ele é alguém traindo a Igreja, usando a batina exatamente como Cauchon usou a mitra.
São Pedro negou o Senhor três vezes na noite do julgamento. E a negação de Pedro não foi a Igreja negando Cristo; foi Pedro pecando, contra tudo aquilo que a Igreja é e crê. O Venerável Fulton J. Sheen dizia que não há nem cem pessoas que odeiem a Igreja Católica de verdade; há, porém, milhões que odeiam aquilo que erroneamente julgam ser a Igreja Católica — o que, é claro, é coisa bem diferente. Foi exatamente isso que ardeu em Rouen: não a Igreja, mas aquilo que se fez passar por ela.
A tua fé não está depositada nos juízes — está em Cristo que guia a Sua Igreja.
Nosso Senhor prometeu a São Pedro: “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). Ora pois, pense comigo: se a Igreja, enquanto Igreja, tivesse mesmo condenado uma santa como herege, então as portas do inferno teriam prevalecido naquele 30 de maio. Mas não prevaleceram. A pedra continuou de pé. O que ardeu foi a mentira — e a mentira, ainda que demore vinte e cinco anos para ser desmascarada, sempre acaba reduzida a cinzas diante da verdade que ela tentou queimar.
Você talvez esteja no seu próprio Rouen. Talvez veja, agora mesmo, homens vestindo a autoridade da Igreja para servir a interesses que não são os de Deus. Não confunda a fumaça da fogueira com o incenso do altar. Não entregue a tua fé a Cauchon nenhum.
A Igreja é a pedra. Os que a traem são a fumaça. E a fumaça passa.
Fique. Reze. E quando vier o teu tribunal injusto — e ele vem — faça como a menina da Lorena: olhe além dos juízes de mentira e grite “Jesus!” até o fim. Santa Joana d’Arc, rogai por nós.