Há um tipo de vida de santo que nos encanta porque parece roteiro de cinema: a reviravolta espetacular, a conversão fulminante, o martírio diante do tirano. E há outro tipo, mais raro de admirar justamente porque é mais comum de viver: a santidade que não tem nenhuma cena de efeito, que se faz devagar, no cumprimento fiel do dever, dia após dia. Santo António Maria Gianelli é desse segundo tipo. E talvez por isso ele tenha tanto a dizer a você.
O menino do morro
Ele nasceu em 1789 — o ano da Revolução Francesa, para você situar a época — numa aldeia pobre da Ligúria, no norte da Itália. Pobre de verdade, não pobre de retórica. Menino, cuidava do rebanho da família nas encostas. Não havia futuro traçado para um pastorzinho daqueles; havia só o morro, as ovelhas e o horizonte estreito de quem nasce sem nada.
Mas havia também, naquele menino, uma inteligência fora do comum e uma fé que chamava atenção. E aqui entra um daqueles detalhes em que se reconhece o modo de Deus trabalhar: uma senhora nobre da região percebeu o dom daquele menino pobre e decidiu bancar os seus estudos. Pare um instante sobre isso. Sem aquela caridade de uma desconhecida, o Gianelli teria envelhecido no morro e ninguém jamais teria sabido seu nome. A santidade, muitas vezes, começa num gesto pequeno de outra pessoa.
A obsessão santa
Ele estudou, e foi brilhante. Tornou-se padre cedo e revelou-se um pregador extraordinário, daqueles que enchem igreja e mexem com o povo. Mas seria injusto reduzi-lo à eloquência. O Gianelli não era só boca: era um padre que se gastava em catequese, confissão, visita aos doentes, cuidado com os mais pobres da paróquia.
E tinha uma obsessão — uma obsessão santa: padres bons. Ele sabia, por experiência, de uma verdade que costumamos esquecer: um povo só é bem cuidado se tiver bons pastores. Padre morno faz rebanho morno; sacerdote medíocre gera comunidade medíocre. Por isso dedicou-se de corpo e alma à formação do clero, foi reitor de seminário, formou gerações de sacerdotes. “Mas isso não é tarefa de bastidor, sem brilho?”, você poderia objetar. É. E é exatamente nos bastidores que se decide a saúde da Igreja.
Fundou ainda uma congregação de irmãs — as Filhas de Maria Santíssima do Horto — para cuidar dos doentes, educar as meninas pobres e servir os mais abandonados. O menino que a caridade tirou da pobreza passou a vida devolvendo essa caridade multiplicada.
O bispo de mula
No fim, foi feito bispo de Bóbbio, uma diocese pequena, pobre e antiquíssima — aquela mesma onde, séculos antes, vivera São Columbano. E como bispo ele foi o que sempre tinha sido: incansável. Visitava as paróquias mais perdidas nas montanhas no lombo de uma mula, para chegar onde o povo de fato estava — não onde era confortável chegar. Cuidava dos pobres com os próprios recursos. E continuava com a obsessão de sempre: a santidade dos seus padres.
Morreu em 1846, ainda relativamente novo, gasto pelo trabalho. E o resumo da vida dele, que o próprio Martirológio guarda, é desarmante de simples: dedicação às necessidades dos pobres, à salvação das almas e à promoção da santidade do clero. Nenhuma cena espetacular. Uma vida inteira de fidelidade no cotidiano.
Por que isso importa para você
Eu insisto neste ponto porque ele nos liberta de uma mentira cômoda. Costumamos imaginar o santo como o sujeito da façanha extraordinária — e, secretamente, isso nos tranquiliza, porque nos dá a desculpa de que santidade é coisa de gente excepcional, não para nós. Santo António Maria Gianelli desmonta essa desculpa. Ele foi santo do jeito que a imensa maioria de nós é chamada a ser: fazendo bem, e até o fim, o trabalho que lhe foi confiado.
A santidade, na esmagadora maioria das vidas, não é fogo de artifício. É o pastor que pega a mula e vai atrás da ovelha, hoje, amanhã e depois. É a professora que prepara bem a aula, o pai que não falta, o trabalhador honesto, o padre que confessa com paciência às onze da noite. Não há plateia. Há só Deus — e Ele basta.
Santo António Maria Gianelli, do morro de ovelhas à mitra, rogai por nós.