Hoje, 1 de junho, a Igreja celebra São Justino Mártir. E é bem provável que você já tenha ouvido aquela frase — às vezes de quem quer te convencer a abandonar a fé, às vezes de quem não sabe bem o que fazer com ela: “a fé é para quem para de pensar”. É daquelas frases que circulam como se fossem axiomas; como se o inteligente, chegando numa certa altura, largasse o rosário na gaveta e seguisse em frente.
Pois eu vim te dizer, caro leitor, que há dezoito séculos um homem deu à fé a resposta mais elegante e mais cara a esse argumento. Elegante porque é filosófica. Cara porque custou a cabeça.
O filósofo que não parou.
Nascido por volta do ano 100 em Flávia Neápolis — a cidade que os romanos edificaram sobre a antiga Siquém, na Samaria, e que hoje se chama Nablus —, São Justino era filho de família grega e pagã. E desde cedo decidiu que ia descobrir o que é Deus. Não como devoto, mas como filósofo. Ia usar a razão até onde ela chegasse.
Começou pelos estoicos — e o mestre não soube sequer falar de Deus. Tentou um peripatético; o homem pediu o pagamento adiantado, e São Justino entendeu que quem cobra pela sabedoria não a tem. Passou pelos pitagóricos, que o mandaram aprender música, astronomia e geometria antes de qualquer coisa essencial — como quem coloca pré-requisitos para adiar a pergunta. E chegou, enfim, aos platônicos. Ali, pela primeira vez, sentiu algo que parecia horizonte: a ideia de que existe uma realidade incorpórea, eterna, que a alma pode contemplar. Achou que estava perto.
Estava perto, de fato. Mas de outro lado do que imaginava.
O velho na praia.
São Justino tinha o costume de caminhar perto do mar para meditar. E num desses dias, um ancião de aspecto venerável o encontrou e começou a fazer perguntas simples. Perguntas que todo o platonismo que São Justino carregava não foi capaz de responder.
E então o velho lhe disse uma coisa que desfez o andaime todo: a razão humana, sozinha, não chega a Deus. Não porque a razão seja má — mas porque Deus não é um problema a ser resolvido; é uma Pessoa que se revela. E houve homens, antes de todos os filósofos, que não chegaram a Deus pelo raciocínio: falaram com Ele. São os profetas. E os profetas apontavam para um que viria.
São Justino escreve no Diálogo com Trifão que naquele momento “imediatamente um fogo foi aceso na minha alma”. O homem que tinha passado a vida percorrendo escolas reconhece, ali, à beira do mar, que a filosofia que procurava tinha um nome. E o nome era Cristo.
O que ele fez a seguir é o que importa para nós.
Ele não largou a toga.
Depois da conversão, São Justino não jogou fora o manto do filósofo. Continuou usando-o. Para quem vivia no século II, o pallium era uma declaração pública: este homem é filósofo. São Justino estava dizendo, com o corpo, aquilo que passaria a defender com a pena: o cristianismo não destrói a razão — ele é a razão levada até o fim.
Mudou-se para Roma e abriu uma escola. Ensinava o cristianismo como filosofia — a filosofia verdadeira, a vera philosophia — a quem quisesse vir. E começou a escrever.
Escreveu a Primeira Apologia dirigida ao próprio imperador Antonino Pio, ao senado e ao povo romano. Apologia, em grego, quer dizer defesa pública. São Justino não pediu desculpas; defendeu. Argumentou ponto por ponto contra as acusações absurdas que pesavam sobre os cristãos — ateísmo, canibalismo, imoralidade. E de quebra, nessa mesma obra, deu-nos a descrição mais antiga de que dispomos sobre a liturgia eucarística dos cristãos do século II: a leitura das Escrituras, a homilia, a oferta do pão e do vinho, a consagração pelas palavras de Cristo, a comunhão.
Mas o que ainda hoje ressoa com mais força é a grande intuição teológica que São Justino plantou naquelas páginas.
As sementes do Verbo.
Cristo é o Logos — a Razão eterna de Deus, o Verbo pelo qual tudo foi feito. E como todo ser humano que pensa participa, em alguma medida, dessa Razão divina, então toda verdade encontrada por qualquer filósofo — Sócrates, Platão, os estoicos — era, sem que eles soubessem, uma sementinha do Logos. Em grego: logos spermatikós. Sementes do Verbo.
Por isso São Justino pôde escrever algo que soa ousado e é na verdade profundamente cristão: “tudo o que foi dito de bom e de verdadeiro por qualquer pessoa pertence a nós, os cristãos”. Não porque a Igreja seja dona de tudo, mas porque o Verbo que a Igreja adora é a fonte de toda verdade — e onde quer que um fragmento de verdade apareça, lá há uma semente Dele.
Meu irmão, pense no que isso significa. Não há verdade fora de Cristo; há verdades que ainda não sabem que vêm d’Ele. A fé não foge da inteligência; ela é a inteligência chegando onde as próprias pernas não chegam.
O tribunal.
Quem pensa muito incomoda. E São Justino incomodava. A tradição recorda que um filósofo cínico chamado Crescente — que ele havia derrotado num debate público — ficou com raiva. O próprio São Justino chegou a escrever que esperava ser denunciado por alguém assim.
Por volta do ano 165, em Roma, ele foi preso junto com seis discípulos. O imperador era Marco Aurélio — paradoxo dos paradoxos: o filósofo-imperador, o homem que escrevia meditações estoicas, assinou a morte do maior filósofo cristão do seu tempo.
Os Atos do martírio sobreviveram. Temos, quase como uma transcrição, o diálogo entre São Justino e o prefeito Rústico. O prefeito perguntou onde os cristãos se reuniam. Perguntou se ele achava mesmo que subiria ao céu depois de morto. E São Justino respondeu com a serenidade de quem passou a vida inteira procurando a verdade e sabe o que tem nas mãos: “eu não acho. Eu sei. Eu tenho certeza.”
A sentença foi pronunciada. São Justino e os companheiros foram açoitados e decapitados. O filósofo que procurou a verdade em todas as escolas do mundo antigo selou com o próprio sangue aquilo que tinha escrito com tinta: não dá para abandonar a verdade para cair no erro.
A resposta ao argumento.
Você talvez conheça alguém — talvez seja você mesmo, num dia de dúvida — que ache que o caminho do pensamento sério leva embora da fé. Que crer seja um atalho para quem não aguentou pensar até o fim.
São Justino é a resposta histórica, encarnada e com sangue a esse argumento. Ele não parou de pensar quando virou cristão; ele começou a pensar de verdade. E chegou a um ponto em que a razão sozinha disse que não chegava mais sozinha — e entendeu isso como sinal de que estava diante de algo maior, não como falha da inteligência.
Padroeiro dos filósofos e dos apologistas, ele provou que fé e razão não são oponentes numa disputa; são as duas pernas do mesmo homem andando em direção à mesma verdade. Separa as duas e o homem claudica. Junta as duas e ele anda. Às vezes, até o martírio.
Assista ao Todo Santo Dia de hoje — o vídeo sobre São Justino Mártir está no link abaixo. E se quiser conhecer mais sobre a vida dele, o verbete completo está no Martirológio do Hub. São Justino Mártir, rogai por nós.