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Patrono

O SANTO QUE O POVO CULPA PELA CHUVA HÁ 1.500 ANOS

Na França existe um ditado que tem mais de mil e quinhentos anos: se chover no dia de São Medardo, vai chover por quarenta dias seguidos. O povo, lá, “culpa” um santo pela chuva — olha pro céu no dia 8 de junho como quem consulta um oráculo. É uma espécie de São Pedro francês, aquele a quem o povo simples “pede” sol ou chuva. E aqui já cabe uma confissão de método: eu não trago essa história para rir do povo. Trago porque ela esconde, por trás de uma brincadeira de almanaque, um dos santos mais amados da história da Igreja na França — e uma lição que eu acho que vale ouro.

Primeiro, a lenda — dita como lenda

Conta-se que, quando São Medardo era menino, uma chuvarada caiu de repente sobre o campo onde ele estava. E uma águia teria aberto as asas por cima da cabeça dele, fazendo as vezes de guarda-chuva, de modo que só o menino ficou seco no meio do temporal. Por causa dessa história, São Medardo virou, na imaginação popular, o santo do tempo, da chuva, das colheitas. Daí o ditado dos quarenta dias.

Eu faço questão de dizer, com todas as letras, que isso é folclore. Tradição popular, não doutrina, não fato comprovado. A Igreja não nos pede para acreditar em águias guarda-chuva, e eu também não vou pedir. Mas reparem numa coisa: a lenda é o anzol. Ela é o que sobreviveu na boca do povo, de geração em geração, atravessando mil e quinhentos anos. E todo anzol existe para puxar alguma coisa de baixo d’água. O que há embaixo dessa lenda é um homem de verdade.

Agora, o homem de verdade

São Medardo viveu no século VI, na Gália — o território da França de hoje. Nasceu por volta do ano 456, de família nobre e cristã, num momento que é difícil até de imaginar: o Império Romano tinha caído, os povos germânicos tinham tomado tudo, as estruturas que sustentavam a vida pública estavam em frangalhos. E a fé, que parecia tão sólida nas cidades romanas, tinha ficado rasa no campo. Boa parte da população ou era abertamente pagã ou trazia um cristianismo de fachada, misturado a superstições antigas. Era preciso reevangelizar quase do zero, num continente em ruínas.

Foi nesse cenário que São Medardo se tornou um evangelizador incansável. Chegou a bispo — bispo de uma cidade chamada Saint-Quentin. E aí a história dele dá uma guinada que diz tudo sobre o tempo em que viveu: a sua cidade foi arrasada nas guerras e invasões. Imagine o que é isso — você é o pastor de um lugar, e o lugar deixa de existir. Muita gente teria largado tudo. São Medardo não. Ele simplesmente transferiu a sede do bispado para outra cidade, Noyon, e recomeçou. Reconstruiu a Igreja naquela região destruída, reorganizou o que dava para reorganizar e converteu multidões de pagãos à fé de Cristo. Foi tão respeitado que se tornou conselheiro e amigo dos reis francos da época. Quando morreu, por volta de 561, o próprio rei Clotário fez questão de levar o corpo dele e mandar erguer uma grande basílica sobre o túmulo — que se tornaria um dos santuários mais visitados da França por mais de mil anos.

Esse é o São Medardo que importa de verdade: não o santo da águia, mas o pastor que segurou a fé de pé num tempo de caos e não fugiu quando o chão desabou.

Por que a lenda durou — e por que isso é bonito

Aqui está a pergunta que eu não consigo parar de fazer: por que o nome de São Medardo atravessou mil e quinhentos anos? Não foi por causa da teologia dele, que quase ninguém leu. Não foi por causa de documentos, que são poucos e frios. Foi porque o povo simples o amou — e quem ama, guarda. Guardou do jeito do povo, é claro: com ditado, com águia, com olho no céu na véspera da colheita. Guardou meio bagunçado, meio misturado com a cultura local, com o medo da seca e a esperança da chuva. Mas guardou. E é exatamente por isso que o nome chegou até nós.

A devoção popular aos santos é assim. Ela não passou pelo crivo de um seminário antes de existir. Ela nasce no chão, na cozinha, no campo, na festa da padroeira, na promessa feita em voz baixa. É imperfeita, às vezes ingênua, às vezes francamente lendária. Mas ela é viva — e a vida sempre vale mais do que a perfeição estéril. Eu prefiro mil vezes um povo que reza a um santo com uma lenda embolada do que um povo que esqueceu completamente que existe céu.

A porta de entrada

E é aqui que eu quero amarrar tudo, porque é a razão de este canal e este blog existirem. A lenda é a porta de entrada; o santo de verdade é a casa. Muita gente conhece o São Medardo só pelo ditado da chuva, e tudo bem — é por aí que se começa. Mas seria uma pena ficar parado na soleira da porta. Vale a pena entrar e conhecer o homem que está lá dentro: o bispo que perdeu a cidade e não perdeu a fé, o missionário que arrancou um povo inteiro do paganismo, o pastor que os reis ouviam e o povo amava.

Porque quando você descobre quem foi um santo, o nome dele para de ser uma palavra de almanaque e vira um amigo. Alguém de quem você pode se lembrar, por quem pode pedir, e que pode pedir por você. Um dia, quem sabe, São Medardo pode virar teu amigo lá no céu — e aí, francamente, não importa mais se choveu ou não no dia da festa dele.

São Medardo, bispo, rogai por nós.


A história completa de São Medardo e dos demais santos do dia 8 de junho está no Todo Santo Dia, no canal Hub Católico no YouTube. E a comemoração de cada santo de hoje você encontra no Martirológio do Hub.

TL
Thiago Lacerda
Colunista do Hub Católico