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QUANDO DEUS VISITOU SEU POVO PELA PRIMEIRA VEZ

Jacopo Pontormo, "A Visitação" (1528-29) — Pieve di San Michele, Carmignano · Wikimedia Commons (domínio público)

Existe uma cena no Evangelho que a gente ouve tantas vezes que vai perdendo o peso. Uma mulher grávida que sobe a montanha para visitar outra mulher grávida. Parece doméstico; parece pequeno. Parece exatamente o tipo de coisa que não muda a história.

Mas mudou.

O primeiro encontro da humanidade com o Filho de Deus encarnado aconteceu numa casa de montanha, entre duas primas.

Estamos no capítulo um de São Lucas. A Anunciação acabou de acontecer — o anjo Gabriel veio, a Virgem aceitou, o Verbo se fez carne no ventre de Nossa Senhora. E então, quase como um detalhe, o anjo acrescenta: “A tua parenta Isabel, aquela que todo mundo chamava de estéril, também está grávida — já no sexto mês.” Deus entrando no mundo pelo ventre de uma jovem de Nazaré; e logo ao lado, no ventre de uma idosa que a sociedade havia descartado, crescia aquele que seria o Precursor. As duas gestações mais importantes da história estavam acontecendo ao mesmo tempo, na mesma família. E uma ia ao encontro da outra.

O que São Lucas registra em seguida é de uma precisão quase cirúrgica: “Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho e, dirigindo-se apressadamente para a montanha, foi a uma cidade de Judá.” (Lc 1,39) Às pressas. Essa é a expressão. Em grego, meta spoudês — com urgência, com pressa de quem vai cumprir algo necessário. Repara no detalhe: Nossa Senhora acabara de receber a maior notícia que um ser humano alguma vez recebeu. Ela tinha todo o direito do mundo de se recolher, de descansar, de se demorar naquela contemplação. E o que faz? Pega a estrada. Uma caminhada de cem, cento e poucos quilômetros por terreno montanhoso, nos primeiros dias de uma gestação, para ajudar uma parenta idosa.

O primeiro gesto de Nossa Senhora carregando Cristo no ventre é um gesto de serviço ao próximo.

Guarda isso. Porque isso não é acidente de relato — é o retrato exato de quem ela é.

Mas a cena que vem a seguir é a que me para. Nossa Senhora entra na casa de Zacarias, saúda Santa Isabel — e São Lucas diz que, ao ouvir aquela saudação, a criança saltou de alegria no ventre dela. São João Batista, ainda não nascido, ainda no útero, reconhece a presença de Cristo no útero de Nossa Senhora. Os dois ainda não vieram ao mundo, e o Precursor já está cumprindo o seu papel: apontar para o Salvador. Ele ainda não tem pulmão capaz de gritar; não tem pé capaz de se ajoelhar; e ainda assim salta. É o único gesto disponível para quem ainda não nasceu — e é o gesto que escolhe.

A primeira adoração a Cristo na história do cristianismo foi feita por um nenê que não tinha nascido ainda.

Pensa no que Deus está dizendo com isso. Ele não escolheu se revelar pela primeira vez diante de uma multidão, num templo, com trovões e sinais no céu. Escolheu se revelar — escondido num ventre — para outro escondido num ventre. Deus que entra no mundo oculto, silencioso, sem pompa; e o primeiro a O reconhecer também está oculto, silencioso, sem poder falar. É uma lógica que vira do avesso toda a nossa ideia de grandiosidade.

E Santa Isabel — cheia do Espírito Santo, como explica São Lucas — grita uma frase que tu recitas até hoje: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre. E donde me vem que a mãe do meu Senhor venha a mim?” (Lc 1,42-43) Percebe? Ela já sabe. Ela já entendeu quem está diante dela — não Maria, a prima; mas a Mãe do Senhor. E pergunta, com uma humildade que constrange: de onde me vem essa honra? É a segunda metade da Ave Maria. A oração mariana mais rezada do mundo em todos os séculos, em todos os continentes, em todas as línguas — a sua segunda metade nasceu da boca de uma idosa grávida saudando a prima na entrada de casa.

Nossa Senhora responde com o Magnificat.

“A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade da sua serva.” (Lc 1,46-48) E segue: o Senhor derruba os poderosos dos seus tronos e eleva os humildes; enche de bens os famintos e despede vazios os ricos. É uma revolução, sim — mas não a revolução que o mundo imagina. É a revolução de Deus a favor dos pequenos; é a lógica do Reino, que não começa pelos fortes, mas pelos que têm fome. Os religiosos de todo o mundo rezam o Magnificat todos os dias nas Vésperas há séculos — e é isso que rezam: a certeza de que Deus não passou por cima dos pobres.

Nossa Senhora ficou com Santa Isabel cerca de três meses, basicamente até o nascimento de São João Batista, e só depois voltou para casa. Serviu até o fim. A Mãe de Deus que, em vez de se exibir com a maior notícia do mundo, carregou água, ajudou na cozinha, acompanhou o parto da prima.

Hoje, 31 de maio, a Igreja fecha o mês de maio com essa cena. E não é por acaso. Porque essa visita doméstica contém tudo — e quero dizer tudo — aquilo que a Igreja é e quer ser. Contém a Mãe de Deus em serviço; contém o primeiro reconhecimento de Cristo no mundo; contém o nascimento da Ave Maria e do Magnificat. Contém Deus escolhendo entrar na história não pelo poder, mas pela humildade; não pela pompa, mas pelo escondimento. A Igreja não nasce num palácio. Nasce num abraço entre duas grávidas.

O Deus feito homem visitou o seu povo pela primeira vez oculto num ventre — e o povo que O reconheceu estava oculto num ventre também.

Meus amigos, quando a gente reza a Ave Maria, está repetindo as palavras que Santa Isabel disse naquele dia. Quando a gente reza o Magnificat, está cantando com Nossa Senhora. Quando a gente venera São João Batista, está venerando aquele que começou o trabalho ainda no útero da mãe. E quando a gente celebra a Visitação, está celebrando a cena em que a história do nosso Deus com a humanidade tomou forma — não no estrondo, mas no passo apressado de uma jovem subindo a montanha para servir.

Que Nossa Senhora nos ensine isso. Que quando Deus nos der a maior notícia das nossas vidas — e em cada batismo, em cada conversão, em cada Eucaristia, Ele dá —, o nosso primeiro gesto não seja de autocontemplação, mas de serviço. Que a gente levante e vá às pressas.


Hoje a Igreja também recorda Santa Petronila, São Félix de Nicósia, São Noé Mawaggali e outros santos que podem ser encontrados no Martirológio do dia 31 de maio.


TL
Thiago Lacerda
Colunista do Hub Católico