Santo Tomás Becket

Também conhecido como Tomás de Cantuária, Mártir de Cantuária, Defensor da Liberdade da Igreja

Identificação

Santo Tomás Becket (1118-1170) — chanceler do rei Henrique II da Inglaterra, depois arcebispo de Cantuária (1162-1170). Mártir da liberdade eclesiástica frente ao poder real, assassinado por 4 cavaleiros do rei dentro da Catedral de Cantuária em 29 de dezembro de 1170. Canonizado em 1173 (apenas 2 anos depois). Cantuária tornou-se o maior santuário peregrino da Inglaterra medieval — destinos dos peregrinos do Canterbury Tales de Chaucer. Memória facultativa universal em 29 de dezembro (4º dia da Oitava do Natal). Inspiração das peças Murder in the Cathedral de T. S. Eliot* (1935) e Becket*** de Jean Anouilh (1959).

Elogio (Martirológio Romano 2004)

Memória de Santo Tomás Becket, bispo e mártir, que, primeiro chanceler do reino, depois arcebispo de Cantuária na Inglaterra, defendeu corajosamente a liberdade da Igreja e os direitos do clero contra o rei Henrique II, sofrendo por isso exílio na França. Ao voltar à pátria, foi morto na sua catedral por capitães do rei, pelo testemunho dado à fé católica.

Vida

Origens

Thomas Becket nasceu em 21 de dezembro de 1118 em Londres, filho de comerciante normando. Educação: Merton Priory, Paris, Bolonha, Auxerre. Doutorado em direito canônico.

Carreira civil (1140-1162)

Servidor do arcebispo Teobaldo de Cantuária. 1154: ordenado diácono + nomeado arquidiácono de Cantuária + conselheiro do novo rei Henrique II (de 21 anos, primo da rainha Eleanor de Aquitânia).

1155: Chanceler da Inglaterra com 37 anos. Amigo íntimo de Henrique II. Vida luxuosa, caça, jantares — companheiro pessoal do rei.

Como chanceler: liderou exércitos (1158-1159 — França), administrou diplomaticamente, mantendo lealdade absoluta ao rei.

Arcebispo de Cantuária (1162-1170)

Em 1162, à morte do arcebispo Teobaldo, Henrique II nomeou Tomás à sé de Cantuária, esperando ter um arcebispo dócil que facilitaria o controle régio sobre a Igreja inglesa.

Becket aceitou relutantemente, profetizando ao rei: “Vossa Majestade, vos prevejo que perderei o vosso favor. […] A nossa amizade transformar-se-á em ódio.”

Mudança radical de vida: Tomás, ao se tornar arcebispo, transformou-se completamente: - Recusou continuar como chanceler (rompimento com o rei). - Vida ascética: cilício, jejuns, vigílias. - Defendeu firmemente os privilégios da Igreja (especialmente a imunidade do clero diante de tribunais civis) — questão central da Querela das Investiduras local.

Conflito com Henrique II (1163-1170)

Constituições de Clarendon (1164): Henrique II tentou subordinar a Igreja inglesa ao Estado com 16 cláusulas (incluindo julgamento de clérigos por tribunais civis). Becket recusou assinar.

Concílio de Northampton (1164): o rei acusou Becket de fraude. Becket fugiu para a França.

Exílio (1164-1170): 6 anos refugiado em Pontigny (Borgonha, abadia cisterciense). Continuou a comunicar com o rei e o papa Alexandre III.

Reconciliação aparente em julho de 1170 — Becket retornou à Inglaterra em 2 de dezembro.

O assassinato

Mas o conflito reacendeu rapidamente. Becket excomungou bispos que tinham coroado o filho de Henrique II em sua ausência (Constituição que reservava esse direito ao arcebispo de Cantuária).

Henrique II, na Normandia, em fúria, exclamou: “Quem me livrará deste padre turbulento?” (“Will no one rid me of this turbulent priest?”).

4 cavaleiros do rei (Reginaldo Fitz Urse, Hugo de Morville, Guilherme de Tracy, Ricardo Brito) tomaram a frase como ordem. Cavalaram a Cantuária.

29 de dezembro de 1170, ~16h30: enquanto Becket entrava em Vésperas na catedral, foi atacado pelos cavaleiros perto do altar lateral. Becket recusou-se a fugir. Foi espancado e decapitado parcialmente com espada — cérebro espalhado pelas pedras da catedral. Morreu dizendo:

“Eu aceito a morte por amor a Cristo e à Igreja. Pela Igreja estou pronto a morrer.”

Quatro golpes descritos pelas testemunhas. Mártir indiscutível.

Repercussão imediata

Canonização meteoríca

  • 21 de fevereiro de 1173: canonizado por Alexandre III, apenas 2 anos e 2 meses após a morte.
  • Cantuária tornou-se imediatamente o maior santuário peregrino da Inglaterra — fluxo contínuo até 1538.

Penitência de Henrique II

Em julho de 1174: Henrique II, em penitência pública pela morte de Becket, peregrinou descalço a Cantuária, foi flagelado por monges no túmulo do mártir. Ato de submissão eclesiástica que reformou a relação Igreja-Estado na Inglaterra.

Henrique VIII (1538) — destruição do túmulo

1538: Henrique VIII, durante a Reforma Anglicana, destruiu o túmulo de Becket e declarou-o “rebelde”. Quase tornou Becket “santo proscrito”. Mas o culto popular sobreviveu. Hoje recanonizado pela Igreja Anglicana ao lado da Igreja Católica.

Cantuária e os “Canterbury Tales”

A Catedral de Cantuária foi até 1538 o destino de uma das 3 maiores peregrinações cristãs medievais (com Roma e Compostela). Geoffrey Chaucer escreveu The Canterbury Tales (1387-1400) sobre peregrinos do santuário de Becket — fundação da literatura inglesa.

Iconografia

  • Vestes episcopais.
  • Cabeça partida ou ferida no crânio (atributo principal).
  • Espadas (instrumento da morte).
  • Cálice ou livro do evangelho.

T. S. Eliot — “Murder in the Cathedral” (1935)

T. S. Eliot escreveu peça em verso sobre Becket, Murder in the Cathedral (1935), uma das maiores obras dramáticas modernas. Frase imortal que Eliot atribui a Becket:

“The greatest treason: To do the right deed for the wrong reason.” (“A maior traição: fazer o que é certo pelo motivo errado.”)

Backlinks

  • Dia litúrgico: por-data/12-dezembro/29
  • Século: por-seculo/seculo-xii
  • País: por-pais/inglaterra
  • Mártires-bispos:
  • Defensores da liberdade da Igreja:
  • Oitava do Natal: natal
  • Outros dias da Oitava: estevao protomartir · joao evangelista · santos inocentes
  • Cantuária — sé do martírio: arcebispos santos
  • Peregrinações medievais:
  • Henrique II e Henrique VIII: contexto político-religioso inglês
  • T. S. Eliot — Murder in the Cathedral
  • Fonte: _fontes/martirologio-romano-2004
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