O mais novo tinha catorze anos. Não dezessete, não vinte: catorze. A idade em que, hoje, a gente acha que um menino mal sabe escolher a roupa que vai vestir. E foi nessa idade que Kizito olhou para a fogueira preparada e não recuou. Você leu certo — uma criança, do tamanho de qualquer filho seu, decidiu morrer queimada antes de trair a Cristo.
Guarde essa imagem. Vamos voltar a ela.
Uma corte, um rei e um grupo de rapazes
Estamos no fim do século XIX, no reino de Buganda, na África Oriental — o território que hoje chamamos de Uganda. A fé católica tinha chegado havia pouquíssimo tempo, levada por missionários, e fez o que o Evangelho sempre faz quando cai em terra boa: pegou fogo. E pegou fogo justamente onde menos se esperava — no coração de um grupo de jovens que serviam como pajens na corte do rei Mwanga II.
Mwanga era jovem, era violento e tinha por hábito abusar dos pajens. Era o poder fazendo o que o poder corrompido sempre faz: tratar gente como objeto. Só que aqueles rapazes tinham abraçado uma fé nova, e essa fé lhes dizia uma coisa simples e perigosa: o seu corpo não é do rei, é de Deus. Quando eles começaram a recusar as investidas — uns já batizados, outros ainda catecúmenos a caminho do Batismo —, o rei entendeu o que estava acontecendo. Não era rebeldia de adolescente. Era obediência a Outro Senhor.
E isso, para um tirano, é a ofensa que não se perdoa.
O chefe que batizou os meninos na véspera
No meio daquele grupo havia um homem íntegro, chamado São Carlos Lwanga. Era o chefe dos pajens, e tinha assumido em silêncio a tarefa de proteger os mais novos das mãos do rei. Quando ficou claro que o martírio vinha — e ele sabia que vinha —, São Carlos Lwanga fez um gesto que me derruba toda vez que penso nele: na própria véspera da morte, batizou com as próprias mãos os catecúmenos que ainda não tinham recebido o sacramento.
Pense no que isso significa. Ele não estava garantindo a sobrevivência de ninguém; estava garantindo a salvação. Sabia que aqueles meninos iam morrer em horas, e a última coisa que fez por eles não foi escondê-los, não foi negociar, não foi fugir. Foi dar-lhes Cristo. Foi um pastor verdadeiro fazendo, à beira do abismo, a única coisa que de fato importa.
Entre os que ele batizou estava Kizito, o caçula. Catorze anos.
A marcha e a fogueira
O rei deu o ultimato de sempre, o ultimato que atravessa todos os séculos da perseguição: renunciar à fé ou morrer. E aconteceu o que sempre desconcerta o poder — nenhum deles recuou. Nem o mais velho, nem o mais novo.
Mwanga então mandou marchá-los por cerca de sessenta quilômetros até um lugar chamado Namugongo. Sessenta quilômetros de estrada sabendo o que esperava no fim. E lá, no dia 3 de junho de 1886, os que não tinham morrido no caminho foram queimados vivos numa única fogueira. São Carlos Lwanga, o chefe, foi tratado com uma crueldade especial; a tradição registra que, no meio do fogo, ele não amaldiçoou ninguém — repetia o nome de Deus. Tinha por volta de vinte e cinco anos.
As testemunhas guardaram um detalhe que não cabe na cabeça de quem só conhece o medo: eles foram cantando. Rumo à fogueira, cantando e rezando até o fim.
“Mas isso é fanatismo”, você vai dizer
Eu sei o que talvez esteja passando pela sua cabeça, porque já passou pela minha: morrer assim, tão jovem, por uma fé recém-chegada, não seria fanatismo? Exaltação de quem ainda não viveu o bastante para ter juízo?
Repare na inversão. Nós é que nos acostumamos a chamar de “juízo” a arte de nunca arriscar nada por nada. Eles tinham a coisa exata que nos falta: sabiam por que valia a pena viver, e portanto sabiam por que valia a pena morrer. Fanático é quem mata pela própria causa; mártir é quem morre sem tirar a vida de ninguém, perdoando quem o mata. São coisas opostas. E o que veio depois prova de que lado estava a verdade.
Porque o sangue daqueles meninos não apagou a fé na África. Multiplicou. As conversões explodiram depois do martírio, a tal ponto que se diz, com razão, que a Igreja na África negra nasceu ali, naquela fogueira de Namugongo. São Paulo VI canonizou São Carlos Lwanga e seus companheiros em 1964 — os primeiros santos da África subsaariana moderna. E foi o mesmo São Paulo VI quem, em 1969, foi pessoalmente a Uganda, o primeiro papa a pisar em solo africano. Ele foi ajoelhar-se onde os meninos arderam.
A coragem não tem idade mínima
Volte agora à imagem do começo: Kizito, catorze anos, diante do fogo.
Nós construímos uma cultura inteira em torno da ideia de que jovem não decide nada. Inventamos uma adolescência que se prolonga até os trinta, em que tudo é provisório, tudo é “fase”, tudo pode esperar — a fé, o compromisso, a coragem, a vida adulta. Dizemos aos nossos filhos, com as melhores intenções, que eles ainda não estão prontos para nada sério. E eles acreditam.
Os mártires de Uganda são a refutação ardente dessa mentira. Numa idade em que se diz que ainda não dá para decidir nada, eles decidiram a única coisa que de fato precisa ser decidida: a quem pertenciam. A coragem não tem idade mínima. A santidade também não. Deus não pede currículo, não pede maturidade emocional certificada, não espera você “se encontrar”. Ele pede o teu sim — e um menino de catorze anos pode dá-lo com uma inteireza que envergonha muito adulto.
Você que me lê talvez não vá enfrentar fogueira nenhuma. Mas enfrenta, todo dia, a pressão de ceder, de adiar, de tratar a própria fé como detalhe negociável. E talvez tenha um filho, um sobrinho, um aluno a quem anda dizendo, sem perceber, que ele é jovem demais para levar Deus a sério. Pare de dizer isso. Conte-lhe, em vez disso, a história de Kizito.
São Carlos Lwanga e companheiros, mártires de Uganda, rogai por nós — pela coragem dos jovens, pela África, e pela fidelidade até o fim.
Conheça a história completa no Todo Santo Dia de hoje e veja todos os santos celebrados em 3 de junho no Martirológio.